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Algodão e Bahia: afinidade histórica

O algodão e a Bahia já possuíam uma história centenária quando o cerrado baiano, no início da década de 90 do século XX, entrou para o mapa da produção estadual, não para ser mais um produtor, mas para dar novos rumos a uma trajetória que então se encontrava em franca decadência.

Naquele momento, o cerrado brasileiro despontava como a grande fronteira agrícola do país, tendo a soja como carro-chefe. Introduzir o algodão na matriz produtiva regional foi um desafio encabeçado por um grupo de líderes locais, em uma iniciativa que logo se mostrou acertada. Em pouco tempo, a Bahia galgou o título de segundo maior produtor de algodão do Brasil, status que se mantém desde a safra 2003/04.

Nem sempre foi assim…

Para entender o quão revolucionária foi a chegada do algodão ao Oeste, é preciso saber que, antes do cerrado, a cotonicultura baiana havia passado por fases totalmente distintas, tanto pela localização geográfica, quanto pela variedade cultivada e pelo modo de produção.

Na época do descobrimento, os nativos indígenas brasileiros já cultivavam e fiavam algodão, especialmente em terras nordestinas, com maior expressão na Bahia e no Maranhão. A variedade então utilizada era o G. Barbadense, do tipo arbóreo e, portanto, perene. O algodão herbáceo, ou anual, só seria introduzido no Brasil a partir de 1860, por iniciativa da Inglaterra, como uma estratégia de diminuir sua dependência da produção americana, oscilante na oferta por causa da Guerra de Secessão nos Estados Unidos.

A Bahia já era um grande produtor no século XIX, assim como São Paulo e Minas Gerais. No entanto, nessa fase, a produção era litorânea, concentrada no Recôncavo, onde também foram instaladas as primeiras indústrias têxteis. As condições climáticas do litoral não favoreceram a cultura, que migrou para o semiárido.

Na década de 80 do século passado, as lavouras ganharam força no Vale do Iuiú, no Sudoeste do Estado, onde o município de Guanambi figurava como o grande produtor da fibra. A região chegou a ter 331 mil hectares de lavouras.

A grade aradora, usada intensivamente no plantio, terminou por compactar o solo. Já a prática da reforma das lavouras, em lugar da erradicação das plantações de uma safra para a outra, criou as condições para que pragas como o bicudo-do-algodoeiro se alastrassem. O bicudo e o pulgão ganharam proporções tais que tornaram a atividade insustentável na região. Hoje a cotonicultura ainda existe no Vale do Iuiú, mas em padrões familiares, bem distante da pujança de outros tempos, representando apenas 2% da produção do estado.

Pioneirismo

Os sucessos e frustrações anteriores na arte de cultivar o algodão na Bahia foram a referência para os futuros produtores do Oeste. O cerrado era como uma página em branco na qual uma nova história seria contada. Não apenas os personagens dessa história eram outros, como o cenário: topografia plana e mecanizável em todas as etapas do processo produtivo, clima seco e pouco propício a pragas e doenças, alta luminosidade o ano inteiro e períodos bem definidos de chuvas e estio ao longo do ano, condições ideais para implantar uma cotonicultura moderna e tecnificada. Um desafio e tanto, já que a produção de algodão no cerrado era uma realidade recente no Brasil.

O que se entende como cotonicultura moderna começou no cerrado da Bahia no início da década de 90 do século XX. As primeiras experiências, conforme o livro Algodão no Cerrado do Brasil, chancelado pela Abrapa, Abapa e as demais associações estaduais de produtores, foram realizadas pela Algodoeira São Miguel – ASM, que buscava um algodão de fibra longa, dos tipos Pima e Acala del Cerro. As informações da ASM começaram a ser difundidas para um grupo de 28 interessados em saber mais sobre a possibilidade de diversificação da matriz produtiva regional.

Para transformar ideias em lavouras, o projeto de plantar algodão no cerrado da Bahia demandou a influência de entusiastas que foram capazes de mobilizar e agregar os produtores para a empreitada.

Os primeiros a encarar o desafio foram João Carlos Jacobsen, que, em 1995, implantou 50 hectares de algodão na Fazenda Independência, em Formosa do Rio Preto, e Ademar Marçal, que dedicou 20 hectares à cultura na mesma época. Jacobsen virou um veemente defensor da causa, desafiando os colegas e vizinhos a aderirem à cotonicultura. O resultado é que, na safra 1997/98, o Oeste da Bahia já possuía oito mil hectares semeados.

Unir e organizar para crescer

A ousadia inicial ganhou corpo e tecnologia. Dias de campo, palestras e consultorias, realizados com frequência até hoje, aperfeiçoaram o conhecimento do algodão e das suas técnicas de manejo. Novos materiais adaptados às condições locais foram introduzidos. A cadeia produtiva também se organizou, entendendo que este seria um fator crucial para a sua sustentabilidade.

Para garantir a representatividade dessa nova vertente produtiva da região, em 2000, foi criada a Abapa, associação cuja história é indissociável da cotonicultura do cerrado baiano.

Hoje ninguém discute a aptidão das terras do Oeste para o plantio da fibra. Mais que grande produtor, o Oeste é uma origem de qualidade reconhecida e respeitada em todo o mundo