» Preço alto acelera venda da safra que nem foi plantada

Os preços excepcionais da soja e do algodão provocaram uma corrida dos produtores para venda antecipada da safra a exportadores em volumes acima do normal. Além de se proteger da alta de custos, como o adubo que subiu cerca de 30% em dólar em 12 meses, agricultores querem aproveitar o bom momento das commodities. Esse movimento é favorável à balança comercial e indica que o agronegócio vai sustentar as contas externas.

No Mato Grosso, por exemplo, que responde por 30% da safra nacional de soja, 20,8% da produção que começa a ser semeada só em setembro já estava vendida no fim do mês passado, aponta um levantamento do Instituto Mato Grossense de Economia Agropecuária (Imea). Em junho de 2010, o índice de venda antecipada estava em 15,6%. “Esse é o maior índice de venda antecipada de soja dos últimos cinco anos”, afirma o presidente da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja), Glauber Silveira.

A venda antecipada para as tradings de um produto que sequer foi plantado normalmente está atrelada a compra de insumos e não envolve desembolso em dinheiro. Esse movimento se intensifica quando o mercado internacional é comprador, porque a transação está relacionada a outro negócio no exterior. No Centro-sul do País, o índice de venda antecipada da soja da safra 2011/2012 até o momento é de 10%, aponta outro levantamento da consultoria Safras & Mercado. É mais que o dobro do registrado em igual período de 2010 (4,6%), diz Paulo Roberto Molinari, analista.

No caso do algodão, os níveis de venda futura também são elevados. De acordo com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), cerca de 20% da produção futura da fibra 2011/2012 está vendida até agora.

Dados da Safras&Mercado indicam uma fatia maior comercializada, de 30%. “O volume é bem acima do que havia sido vendido em igual período de 2010”, afirma Élcio Bento, analista da consultoria. Ele conta que a grande novidade é que foi comercializada até uma pequena parcela da safra de algodão a ser colhida dentro de dois anos, em 2013.

Troca

O motivo de tanta antecipação é que os preços dos produtos agrícolas estão nas alturas e a relação de troca com os insumos está favorável ao agricultor. No caso da soja, o preço do primeiro semestre variou entre US$ 13 e US$ 14 o bushel, o que equivale a R$ 53 a saca do grão no porto de Paranaguá (PR). No ano passado, o preço estava US$ 8 por bushel ou R$ 40 a saca.

Molinari diz que hoje são necessárias 25 sacas de soja de 60 quilos para comprar 1 tonelada de fertilizante. Em 2010, o custo da mesma tonelada de adubo correspondia a 40 sacas de soja. Mais capitalizados, em razão dos ganhos de receita acumulados nas últimas safras, o produtor também passou a investir mais nas lavouras.

“Os agricultores estão neste ano a procura de sementes de melhor qualidade e as compras estão mais adiantadas em relação às do ano passado”, diz o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Sementes, Narciso Barison, fazendo referência às vendas de sementes de soja, milho e algodão. Essa também é a avaliação dos fabricantes de defensivos agrícolas.

Eduardo Daher, diretor executivo da Andef, conta que as vendas de produtos de janeiro a maio deste ano estão 7% maiores em relação a igual período de 2010. Parte desse acréscimo se deve à antecipação de compra de defensivos pelos produtos que, mais capitalizados, estão optando por produtos sofisticados. “Com mais renda, os produtores procuram defensivos específicos e evitam os genéricos”, diz o executivo.

A expectativa do setor é ampliar em 10% o faturamento em 2011 ante 2010. Com isso, os fabricantes de defensivos poderão alcançar em 2011 uma das com maiores taxas de crescimento de receita dos últimos anos. Otávio Celidônio, superintendente do Imea, observa que neste ano é significativa a parcela das compras de fertilizantes que foram quitadas à vista, o que mostra a capitalização do produtor. Segundo as estatísticas disponíveis para o Estado de Mato Grosso, de 100% dos fertilizantes vendidos até maio, 44% foram pagos à vista. No caso dos defensivos, essa fatia é de 38%. Além de comprar insumos de melhor qualidade e pagar à vista, com dinheiro no bolso, os produtores do Mato Grosso quitaram parte das dívidas. Segundo Silveira, da Aprosoja, o endividamento dos produtores do Estado, que quatro anos atrás era de R$ 10 bilhões, hoje está em R$ 7,8 bilhões.

Fonte: Folha de São Paulo