Mulheres que educam, cultivam e transformam: histórias que ajudam a explicar o sucesso do algodão na Bahia

Publicado em: 9 de março de 2026

 

Muito antes de a agricultura se tornar ciência, as mulheres deram passos que definiriam a nossa história. Nas sociedades de caçadores-coletores, há cerca de 12 mil anos, os homens eram responsáveis pela caça e a elas cabia a coleta de sementes, frutos e raízes. Não demorou muito para apurarem o senso de observação, a perceber os ciclos das plantas, a selecionar sementes e replantá-las próximas aos acampamentos humanos.

Da curiosidade diante da natureza nasceram as primeiras experiências de domesticação de plantas e, com elas, a própria ideia de agricultura. A relação entre mulheres e agricultura é tão estreita, que na tradição da Roma antiga, ela tinha um rosto feminino: Ceres, deusa da fertilidade da terra, das colheitas e dos grãos, era reverenciada como a guardiã dos ciclos que sustentam a vida. Seu nome atravessou séculos e chegou até a ciência moderna: é dele que deriva a palavra “cereal”.

Apesar disso, milênios depois, as mulheres ainda lutam por voz, reconhecimento e espaços de decisão. Na cadeia produtiva do algodão, na Bahia, elas vêm reconquistando esse espaço que também é seu desde o início dos tempos. Não faltam exemplos de mulheres ajudando a fazer a diferença, seja na pesquisa científica, nas fazendas, em posições de decisão, operando máquinas, pilotando aviões agrícolas, negociando com o mercado, dirigindo negócios e associações de classe. Tudo isso, com o senso apurado de observação, instinto e racionalidade que vêm elaborando desde tempos imemoriais.

A própria Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) é um exemplo desta escalada de presença: tem, na presidência, a cotonicultora Alessandra Zanotto Costa, a segunda mulher a ocupar esta posição em 26 anos de história, e uma diretoria e quadro de colaboradores marcado por mais de 60% de mulheres. Para garantir que cada vez mais mulheres possam contribuir para a fibra baiana, a entidade aposta na educação. Esta frente de trabalho prioritária materializa-se no Centro de Treinamento, e, mais especificamente, no programa Conhecendo o Agro, cujo papel de professoras e coordenadoras pedagógicas tem sido fundamental.

Professoras e algodão são uma combinação tradicional na história da cotonicultura baiana, e ninguém ilustra melhor esta relação que Claire Wobeto Rodrigues. Conhecida por todos como Vick, ela foi a “mestra” de grande parte dos agricultores da segunda geração de pioneiros do Oeste da Bahia, que hoje começam a assumir a missão de levar adiante o sonho dos pais. Mas Vick também é a matriarca de uma das primeiras famílias a acreditar no algodão na região. Seu marido, João Carlos Jacobsen Rodrigues, foi o primeiro presidente da Abapa e presidiu a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa). Num tempo de poucos recursos na entidade, Vick, que já atuava intensamente no negócio na fazenda, conciliava o magistério com a doação do seu tempo e habilidades com as letras para as entidades. “Fazia discursos, cerimoniais, organizava as solenidades de posse… não tínhamos muitos braços, e eu gostava de me envolver”, rememora.

Vick chegou a Barreiras ainda muito jovem, em um período em que a região começava a se consolidar como uma nova fronteira agrícola do país. Antes de atuar mais diretamente na empresa agrícola da família, construiu uma longa trajetória na educação. Pedagoga formada pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), com especializações em Orientação Educacional e Administração com ênfase em Recursos Humanos, ela passou décadas em sala de aula e na coordenação pedagógica de uma das escolas mais tradicionais da cidade.

Ao olhar para trás, reconhece que sua própria história se entrelaça com a formação de muitos jovens que hoje ocupam posições de liderança no agro regional.

“Eu sempre vi a educação como agente de transformação. Muitos desses ‘meninos’ que hoje estão no agro passaram pela escola onde trabalhei. Inclusive meu filho João Filho. Quando encontro alguns deles já profissionais, fico muito feliz de saber que participei, ainda que um pouco, da formação deles”, lembra.

Entre esses ex-alunos está a própria presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), Alessandra. “Quando a vejo brilhar e nos representar tão bem, meu coração se enche de alegria por saber que tem um pouquinho de mim na sua trajetória. Desde as primeiras letras”, emociona-se.

Mais do que uma lembrança afetiva, a experiência de Vick como educadora moldou também sua atuação dentro da empresa agrícola da família, onde acompanha de perto a área de Recursos Humanos e projetos sociais. Um deles é o Semeando Educação, iniciativa voltada a apoiar crianças e adolescentes das comunidades próximas às fazendas, garantindo materiais escolares e incentivando a permanência dos alunos na escola.

“A educação começa na base. Muitas crianças ainda chegam à escola sem o material básico. Se queremos profissionais mais preparados no futuro, precisamos olhar para a formação desde cedo”, afirma.

Alessandra também não esconde o carinho pela professora: “A ‘tia’ Vick é uma inspiração. Uma verdadeira mulher do algodão, mesmo antes disso se tornar um movimento internacional. Quando falamos da força da mulher no agro, não estamos falando apenas de presença nas fazendas ou nas empresas, mas também de formação de pessoas. A Vick foi uma educadora apaixonada pelos seus alunos e pela sala de aula, e ajudou a preparar uma geração inteira. Eu tive o privilégio de ser sua aluna, e sei o quanto professores assim marcam nossas trajetórias”, afirma.

Educar também é semear

Essa ponte entre educação e agro também aparece na história da professora Nádila Matos Sardeiro, do município de Wanderley. Educadora há 24 anos, mãe solo de três filhos e professora da Escola Municipal João Aldino Sá Teles – MCPM, ela passou a integrar recentemente o Programa Educacional Conhecendo o Agro, iniciativa da Abapa voltada a aproximar professores e estudantes da realidade da produção agrícola da região.

No projeto desenvolvido com alunos do ensino fundamental, Nádila criou um jogo pedagógico sobre o ciclo do algodão, conectando conteúdos de sala de aula, como a Revolução Industrial, com a realidade econômica do Oeste baiano.

“O algodão aparece nos livros de história como um elemento central da industrialização. Quando os alunos percebem que essa mesma fibra faz parte da realidade da região onde vivem, o aprendizado ganha outro sentido”, conta.

Segundo ela, a experiência despertou a curiosidade dos estudantes e ampliou a compreensão sobre a importância social e econômica da agricultura.

“Às vezes a gente vive perto de uma história tão importante e ela passa despercebida. Quando os alunos começam a entender de onde vem o algodão, como ele é produzido, como gera emprego e movimenta a economia, o interesse deles cresce muito”, diz.

Criado pela Abapa em parceria com escolas da região, o Conhecendo o Agro busca exatamente esse tipo de conexão entre educação e realidade produtiva. Desde 2019, o programa já alcançou 165 mil alunos, 3.608 professores e 594 escolas em 14 municípios, por meio de materiais paradidáticos, atividades pedagógicas, visitas técnicas e projetos desenvolvidos em sala de aula.

 Olhar feminino que transforma

Para a coordenadora pedagógica do programa Conhecendo o Agro, Mayara Rodrigues, histórias como as de Vick e Nádila ajudam a revelar uma dimensão muitas vezes silenciosa, mas profundamente transformadora da presença feminina no agro.

“Quando uma professora desperta curiosidade, amplia horizontes ou ajuda um jovem a acreditar no próprio potencial, ela também está ajudando a construir o futuro do campo. Investir em educação e qualificação é uma das formas mais consistentes de fortalecer o agro e garantir que ele continue gerando oportunidades para as próximas gerações”, afirma.

 

 

09.03.2026

Imprensa Abapa

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Monise Centurion – Jornalista Assistente | (17) 99611-8019

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